Lidar com uma criança autista durante uma crise pode ser uma situação desafiadora para pais, familiares, professores e cuidadores. Em momentos de grande sobrecarga, a criança pode chorar, gritar, se afastar, apresentar movimentos repetitivos, jogar objetos ou demonstrar dificuldade para compreender o que está acontecendo ao seu redor.
Antes de tudo, é importante compreender que uma crise não deve ser vista simplesmente como uma “birra” ou como uma tentativa de chamar atenção. Em muitos casos, a criança está enfrentando uma sobrecarga sensorial, emocional ou comunicativa e pode não conseguir expressar aquilo que está sentindo ou necessitando.
Por isso, o adulto precisa agir com calma, segurança e respeito. Confira a seguir 10 dicas que podem ajudar durante esses momentos.
1. Mantenha a calma
A primeira atitude do adulto deve ser tentar manter a própria calma. Quando uma criança está em crise, gritar, ameaçar ou demonstrar desespero pode aumentar ainda mais a tensão do ambiente.
Fale em um tom de voz tranquilo e procure manter movimentos lentos. Evite discutir ou tentar convencer a criança de que ela precisa parar imediatamente.
Mesmo que seja difícil, lembre-se de que o adulto é quem precisa oferecer segurança naquele momento.
Uma postura tranquila pode ajudar a transmitir à criança a sensação de que ela está protegida e que existe alguém preparado para ajudá-la.
2. Reduza os estímulos do ambiente
Muitos estímulos ao mesmo tempo podem aumentar a sobrecarga da criança. Durante uma crise, observe o ambiente e tente diminuir aquilo que pode estar contribuindo para o desconforto.
Reduza o volume da televisão, desligue músicas, diminua a iluminação quando possível e afaste pessoas que estejam falando ao mesmo tempo.
Também pode ser importante levar a criança para um espaço mais tranquilo, desde que isso possa ser feito com segurança e sem forçá-la.
Um ambiente mais silencioso e previsível pode facilitar a recuperação.
3. Respeite o espaço físico da criança
Nem toda criança gosta de receber abraços ou ser tocada quando está sobrecarregada. Algumas podem se sentir ainda mais desconfortáveis quando alguém tenta segurá-las, abraçá-las ou pegá-las no colo.
Por isso, observe os sinais apresentados pela criança.
Se ela estiver tentando se afastar, respeite seu espaço sempre que possível. O adulto pode permanecer próximo, garantindo segurança, mas sem invadir o espaço pessoal.
O contato físico deve ser utilizado de acordo com as necessidades e preferências individuais da criança e, principalmente, sem transformar o momento de crise em uma disputa física.
4. Use poucas palavras
Durante uma crise, a criança pode apresentar dificuldade para processar informações. Fazer muitas perguntas ou dar várias ordens ao mesmo tempo pode aumentar a sobrecarga.
Em vez de falar constantemente, utilize frases curtas e objetivas.
Por exemplo:
“Estou aqui.”
“Você está seguro.”
“Vamos para um lugar tranquilo.”
“Quando estiver pronto, podemos conversar.”
Evite discursos longos, broncas ou explicações naquele momento. O objetivo principal é ajudar a criança a recuperar a tranquilidade.
5. Priorize a segurança
Durante uma crise, a segurança deve ser uma prioridade.
Observe se existem objetos próximos que possam machucar a criança ou outras pessoas. Quando possível, retire objetos perigosos do ambiente e mantenha uma distância segura de situações que possam representar risco.
Também é importante evitar atitudes que possam aumentar o perigo, como provocar a criança, gritar ou tentar confrontá-la.
Se houver risco imediato de ferimentos, procure ajuda de pessoas capacitadas e siga as orientações dos profissionais que acompanham a criança.
6. Evite punições e ameaças
Uma crise não é o momento adequado para aplicar castigos, fazer ameaças ou exigir que a criança peça desculpas.
Frases como “pare de fazer isso agora”, “se você continuar vai ficar de castigo” ou “você está fazendo isso de propósito” podem aumentar a tensão.
Durante a crise, a prioridade é a regulação e a segurança.
Os ensinamentos sobre comportamentos, limites e estratégias para situações futuras podem ser trabalhados posteriormente, quando a criança estiver tranquila e conseguir compreender melhor as orientações.
7. Dê tempo para a criança se reorganizar
Cada criança possui seu próprio tempo de recuperação.
Algumas conseguem se acalmar rapidamente, enquanto outras precisam de vários minutos para diminuir a sobrecarga.
Não pressione a criança para voltar imediatamente às atividades.
Permita que ela tenha um momento de descanso em um ambiente seguro e tranquilo.
O adulto pode permanecer próximo, demonstrando disponibilidade, sem exigir interação.
Depois que os sinais de crise diminuírem, a criança poderá estar mais preparada para retomar gradualmente sua rotina.
8. Utilize recursos de comunicação alternativa
Para crianças que possuem dificuldades de comunicação, a crise pode estar relacionada justamente à dificuldade de expressar uma necessidade.
A comunicação alternativa pode ser uma importante ferramenta nesse processo.
Cartões, figuras, pranchas de comunicação, símbolos e outros recursos podem ajudar a criança a expressar necessidades como:
“Estou com dor.”
“Quero água.”
“Quero ficar sozinho.”
“Está muito barulho.”
“Estou cansado.”
“Quero ir embora.”
É importante que esses recursos sejam conhecidos e utilizados no cotidiano, e não somente durante as crises. A criança precisa ter oportunidades para aprender a utilizá-los quando está tranquila.
A escolha dos recursos e das estratégias deve considerar as necessidades individuais da criança, podendo contar com orientação de profissionais especializados.
9. Observe o que aconteceu antes da crise
Depois que a criança estiver tranquila, tente compreender o que aconteceu antes do episódio.
Pergunte a si mesmo:
Havia muito barulho?
A rotina mudou?
A criança estava cansada?
Ela estava com fome?
Houve uma mudança inesperada?
Alguém não conseguiu compreender o que ela queria comunicar?
Havia muitas pessoas no ambiente?
Pode ter ocorrido alguma situação de desconforto ou dor?
Identificar possíveis gatilhos não significa culpar a criança ou alguém pelo episódio. O objetivo é compreender melhor suas necessidades e encontrar maneiras de prevenir situações semelhantes.
Manter registros simples dos episódios pode ajudar pais, professores e profissionais a identificar padrões ao longo do tempo.
10. Ofereça acolhimento depois da crise
Quando a crise terminar, a criança pode estar cansada física e emocionalmente.
Esse momento pede acolhimento e compreensão.
Não é necessário fazer uma longa conversa imediatamente. Muitas vezes, permitir que a criança descanse e volte gradualmente à rotina é mais adequado.
Quando ela estiver completamente tranquila, adultos e profissionais podem trabalhar estratégias para situações futuras.
Também é importante reconhecer pequenas conquistas. Se a criança conseguiu utilizar um cartão, afastar-se de um estímulo ou procurar ajuda antes de uma crise, esses comportamentos podem ser valorizados.
A importância de compreender antes de julgar
A melhor maneira de ajudar uma criança autista durante uma crise é tentar compreender o que ela está comunicando por meio daquele comportamento.
Nem sempre a criança consegue dizer “estou cansada”, “está muito barulho”, “estou com dor” ou “não estou conseguindo lidar com essa situação”. Algumas vezes, o comportamento acaba sendo a maneira encontrada para demonstrar que algo não está bem.
Por isso, em vez de perguntar apenas “como faço para ela parar?”, é importante também perguntar:
“O que essa criança está tentando comunicar?”
Essa mudança de perspectiva pode transformar a maneira como pais, familiares, professores e cuidadores respondem às crises.
Cada criança é única
Não existe uma estratégia única que funcione para todas as crianças autistas. O que ajuda uma criança pode não funcionar para outra.
Por isso, é importante observar suas características, preferências, formas de comunicação e necessidades.
A participação de profissionais que acompanham a criança também pode contribuir para desenvolver estratégias individualizadas de comunicação, regulação e prevenção de crises.
Mais do que fazer a criança “parar de chorar” ou “ficar quieta”, o objetivo deve ser ajudá-la a recuperar a segurança, diminuir a sobrecarga e desenvolver formas mais eficientes de comunicar suas necessidades.
💙 Psicodidática: comunicação também é acolhimento
Quando oferecemos uma forma de comunicação para uma criança que possui dificuldade para falar, estamos oferecendo muito mais do que imagens ou símbolos.
Estamos oferecendo a possibilidade de dizer:
“Eu quero.”
“Eu não quero.”
“Estou com dor.”
“Estou cansado.”
“Preciso de ajuda.”
“Me dê um tempo.”
Comunicar é participar, escolher e ser compreendido.
Por isso, durante uma crise, o mais importante não é apenas tentar interromper o comportamento, mas olhar para a criança com empatia e buscar compreender aquilo que ela está tentando comunicar.
Acolher é ouvir até mesmo quando as palavras não estão presentes.



